Mostrar mensagens com a etiqueta Entrevistas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Entrevistas. Mostrar todas as mensagens

Entrevista a Tiago Salazar

 As entrevistas estão de volta ao Histórias Transmitidas, desta vez com Tiago Salazar, autor de vários livros nos mais variados géneros.

Obrigada ao Tiago pela disponibilidade para responder às minhas perguntas.

HT: O Tiago é formado em Relações Internacionais, estudou dramaturgia e trabalha como jornalista. Como é que surge a escrita na sua vida?

Guardo uns cadernos escolares com uma espécie de primeiros romances, de 1976. Ou seja, aos quatro anos já tinha apetência por palavras. Desenhar, nessa altura, era a ilustração do tema dos "livros". Só revelei ser precoce porque a minha avó Vessadas Salazar ensinou-me a ler, escrever e fazer contas antes de entrar para a escola primária. Acho que o facto de haver livros por toda a casa também contribuiu.

HT: Os seus livros têm temas bastantes abrangentes.  Nota-se claramente que é um cidadão do mundo, mas também escreve sobre amor e, mais recentemente, publicou um Romance histórico (O Magriço). Existe algum género que lhe dê mais prazer escrever?

É difícil responder. Talvez a crónica me encha mais as medidas, por ser curta e efectiva, mas desde que me dedico ao romance não quero outra coisa.

HT: Presumo que goste de ler. Em caso afirmativo, quais as suas referências em termos literários?

Um escritor que não goste de ler, se houver algum que o diga, deve ser um mentecapto. Nem que seja ler dicionários e enciclopédias. Como podem trabalhar-se as palavras sem lhes conhecer o uso? Referências vão desde os gregos e romanos até aos autores no activo. E não falo só de romancistas, pois sou um leitor omnívoro.

HT: O que acha do actual panorama literário português?

Não sei responder. Mas há vários autores a publicar, pelo que o panorama é de se gastar dinheiro com papel. Se são bons, maus ou assim-assim, deixo a palavra aos críticos. Tenho a sensação de que continuamos como dizia o Camilo (CCB), desajeitados no romance.

HT: Para terminar, está a trabalhar num novo livro? Em caso afirmativo, pode levantar-nos a “pontinha do véu”?

Acabei de receber uma bolsa da DGLB para me dedicar inteiramente à escrita durante um ano. Será um policial histórico sobre a condenação infame do cristão-novo Simão Sólis. O famigerado que deu azo à expressão as obras de Santa Engrácia.


Entrevista a Isabela Figueiredo

A rubrica "Entrevistas" está de regresso, desta vez com Isabela Figueiredo.

Esta autora nasceu em Lourenço Marques, Moçambique, hoje Maputo, em 1963, e veio para Portugal em 1975, após a independência de Moçambique.

Entre outras obras, escreveu o livro "A Gorda", cuja leitura já foi aqui registada.

Muito Obrigada à Isabela por ter respondido às minhas perguntas.


HT: A Isabela veio de Moçambique muito jovem. Como foi a adaptação a Portugal?

Isabela Figueiredo: Foi difícil. Dorida. Com muita desilusão sobre o país e as pessoas. Foi um processo de adaptação a um lugar de exílio. 

HT: Alguma vez sentiu o estigma dos retornados?

 Isabela Figueiredo: Senti-o todos os dias, entre a data da minha chegada a Portugal e uma que situarei de forma imprecisa em 1984, porque penso ser essa a altura a partir da qual o tema retornados saiu do discurso diário. 

HT: Li que regressou a Moçambique me 2016. Qual foi a sensação?

Isabela Figueiredo: Foi uma bela lição para quem pensava não pertencer inteiramente a Portugal, não ser portuguesa legítima. Senti-me no estrangeiro, na terra onde nasci. Conhecia todos os lugares, conhecia os hábitos, reconhecia a língua, a cultura, mas era a terra dos outros. Disse a pouca gente que eu também era de lá. Para quê? Foi a sensação de uma bofetada forte, fria e seca nas trombas. 

HT: Fez os estudos cá, trabalhou como jornalista e também deu aulas. Como é que surge a escrita na sua vida?

Isabela Figueiredo: Fiz os estudos também lá. Iniciei lá. Os estudos não se resumem à formação universitária. A escrita surgiu com naturalidade. Eu gostava de ler e, portanto, escrever era a consequência expressiva dessa prática. Percebi cedo, muito cedo, e refiro-me à escola primária, que tinha jeito para escrever.

HT: No seu livro “A Gorda”, fala abertamente da relação com o corpo, sem rodeios e “salamaleques”. Sempre teve uma boa relação com o seu corpo?

Isabela Figueiredo: Até à puberdade o meu corpo foi fácil. Era uma rapariga ágil, cujo corpo servia bem aquela que o habitava. Servir bem significa que eu não o sentia e não era alvo de qualquer atenção em particular por sua causa. Após a puberdade, muda tudo. A genética dotou-me com um corpo volumoso e paguei o preço por esse volume, que não estava na moda, embora fosse uma rapariga bonita e saudável. Desenxovalhada. Eu sabia-o. Por isso, ser alvo de troça e de rejeição era incompreensível, incoerente. Não havia nada de errado em mim e, no entanto, eu era um erro, uma anormalidade. Não foi fácil. Não desejaria voltar a viver esses tempos.

HT: Como funciona o seu processo de escrita? Tem uma rotina ou escreve quando está inspirada? 

Isabela Figueiredo: Escrevo quando estou inspirada e depois escrevo todos os dias, nas fases finais. Não percebo porque perguntam sempre isto. A semana passada perguntaram-mo quatro vezes. 

HT: Gosta de ler? Em caso afirmativo, quais as suas referências literárias?

Isabela Figueiredo: É impossível alguém chegar a escritor sem ter lido muito. 

As minhas referências literárias são conhecidas. Literatura francesa, inglesa, russa, italiana, brasileira e portuguesa. Tudo o que li me construiu um pouco.

HT: Para terminar, já pensa noutro livro ou ainda está a "aproveitar" este?

Isabela Figueiredo: Estou já no próximo, mas claro que recebo os ecos do último e estou muito contente com o que me vai chegando.

Entrevista a Susana Piedade

A minha convidada de hoje para a rubrica entrevistas é Susana Piedade, autora do livro "Três Mulheres no Beiral", cuja opinião podem ler aqui, e a quem agradeço a simpatia e disponibilidade com que respondeu às minhas perguntas.

HT: A Susana tem três livros e um conto publicados. Como é que a escrita surgiu na sua vida?

Susana Piedade: Acho que criei um vínculo com a escrita quando comecei a juntar palavras, frases e a perceber o que poderia fazer com elas. Sempre gostei de escrever e o sonho de publicar um livro concretizou-se com “As Histórias Que não Se Contam”, o meu primeiro romance.  

HT: Foi finalista do Prémio Leya duas vezes. Como é que descreve a sensação de, por um lado, ter sido nomeada no meio de tantos autores e por outro não ter conseguido ganhar o galardão?

Susana Piedade: O Prémio Leya é um concurso literário realizado às cegas e com um nível muito elevado de rigor e exigência. Teria sido fantástico ganhar, como é óbvio, mas chegar à final, entre centenas de concorrentes, é, sem dúvida, uma grande honra e o reconhecimento do meu trabalho.

HT: No seu livro "Três Mulheres no Beiral" aborda a questão da especulação imobiliária na cidade do Porto. Preocupa-a esta mudança na sua cidade?

Susana Piedade: Sim, preocupo-me com esta mudança no Porto, porque é a minha cidade e o caso que conheço mais de perto. Muito de bom se fez pela Invicta, que é hoje um destino turístico desenvolvido e bastante apetecível. Porém, é lamentável a forma desenfreada e desregulamentada que a especulação imobiliária assumiu; algumas transformações descaracterizaram os lugares, a desumanidade de certos investidores foi levada ao extremo, e as casas atingiram valores incomportáveis para as nossas possibilidades. 

HT: Gosta de ler? Em caso afirmativo, quais as suas referências literárias?

Susana Piedade: Gosto muito de ler, desde pequena. As minhas leituras são diversificadas, foram mudando ao longo dos anos e vou lendo o que se proporciona em cada altura, mas aprecio sobretudo ficção. Ler é sempre um prazer e um ganho. Gostava de ver mais pessoas com um livro na mão, em vez do telemóvel.

HT: Para terminar, já pensa noutro livro ou ainda está a "aproveitar" este?

Susana Piedade: Este livro ainda está muito presente e, tal como “O Lugar das Coisas Perdidas” e “As Histórias Que não Se Contam”, tem sempre o seu lugar. Agora quero passar a outra história, sim, faz-me falta.

Susana Piedade

18/01/2023


Entrevista a Angela Marsons

 Hoje temos na rubrica entrevistas Angela Marsons, escritora dedicada ao género policial.

Angela vive na região de Black Country e é aí que se desenrola a ação dos seus livros.

Espero que gostem de conhecer um pouco mais desta autora, a quem agradeço a disponibilidade para responder às minhas perguntas.

HT: What made you start writing? 

When I was very young I loved reading and would have a book with me at all times. In my early teens my English teacher offered me some books to read that were above my reading age and I was hooked. From then I knew that I wanted to be writing stories that made people feel emotions. I wanted to move people to laughter or anger or sadness using the power of words. I wanted to tell stories and share my stories with other people.

HT: Where do you get your ideas to the books? 

The majority of my books are inspired by issues that I feel strongly about or that interest and intrigue me. They are often subjects that I’ve been interested in for many years. I often choose the background subject and then work in a crime story. Sometimes I can get an idea from just watching a television program or listening to the news or overhearing a conversation.

HT: How does your writing process works: believe in inspiration or have a pre-arranged time to write? 

I tend to write best in the early morning or late evening. I think the habit comes from writing for many years around full time employment. It is at those times of day when I feel the world is sleeping that I feel most creative. If an idea holds me I will continue writing until my hand aches and I can write no more.

HT: Of all his books, you can choose the one that gave him more pleasure to? 

My favourite book to write was Lost Girls - book 3 in the series. It was an idea that I had wanted to explore for a while and it simply came out on to the paper exactly as it appeared in my head. There were no stumbling blocks and once I began writing the book I didn’t want to stop. I think it remains my longest book.

HT: What changed in your life after the release of the first book? 

My lifelong dream had always been to write for a living and the success of Silent Scream - book 1 - meant that I was able to fulfil that dream. I am able to call my passion my job and I am grateful every day for the readers who have chosen to follow Kim Stone’s journey.

HT: I assume you also enjoy reading. What are your favorite writers?

Some of my favourites include Val McDermid, Karin Slaughter, KL Slater, Lisa Regan to name just a few.

HT: Finally, what are your writing projects for the future?

I am currently working on book 18 in the series and I am contracted to write another 12 Kim books so that will keep me busy for the foreseeable future.

Entrevista a João Cerqueira

João Cerqueira é um repetente na nossa rubrica “entrevistas”. Foi entrevistado por nós em 2015 (link entrevista) e aceitou novamente o convite passados 7 anos e alguns livros.

Obrigada ao João por ter respondido às minhas perguntas. Podem acompanhar o seu percurso em:  http://www.joaocerqueira.com/ .

HT: Em 2015 perguntei-lhe como tinha surgido o gosto pela escrita. Agora, depois de conhecer melhor a sua obra e o seu percurso, tenho curiosidade em saber qual o lugar que ocupa a História da Arte na sua vida?

João Cerqueira: Dou aulas de História da Arte na Escola Superior de Educação de Viana do Castelo. Além disso, as minhas teses de mestrado e doutoramento, esta com mais de quatrocentas páginas, foram fundamentais para melhorar a qualidade da escrita e para aprender a estruturar um texto e a arrumar as ideias. Sem prejuízo da criatividade, estas competências que adquiri são muito uteis na escrita de um romance.

HT: O João tem uma obra literária bastante reconhecida e premiada, ainda que seja mais no estrangeiro. Consegue perceber o motivo?

João Cerqueira: Eis uma boa pergunta que poderia ser feita a algumas editoras portuguesas e aos jornalistas e críticos que ignoram o meu trabalho. Venci quatro prémios literários nos Estados Unidos (um deles já foi patrocinado pela Amazon), estou publicado em oito países, tenho críticas na Melbourne Review of Books e em várias revistas americanas, fui entrevistado pelo Seatle Pi e pelo El Nuevo Herald, mas em Portugal só recentemente o CM ,o JN  e o SOL me divulgaram. Será que um escritor português ser publicado e vencer prémios noutros países não é motivo para divulgação nas secções culturais dos jornais? Porque será que, entre outros, a Agência Lusa – que supostamente existe para dar notícias – manda para o lixo os emails que ao longo destes anos lhes tenho enviado sobre o reconhecimento que tenho tido no estrangeiro? Posso ainda referir que há uns anos a directora de um dos principais jornais recusou publicar uma peça sobre mim feita por um jornalista da casa, uma revista de literatura contactou-me para uma entrevista e depois recusou também publicá-la e, recentemente, uma crítica de cinco estrelas que foi colocada numa das maiores livrarias online desapareceu misteriosamente.

Dito de outra forma, sinto-me censurado por dizer coisas que desagradam aos donos da cultura.

Aliás, a maioria dos escritores e artistas portugueses ou estão com a Situação ou não emitem opiniões políticas.

HT: Os seus livros “A Segunda Vinda de Cristo à Terra” e “A Tragédia de Fidel Castro” estão cheios de humor e criatividade. Inspirou-se em alguns escritores com estas características ou é uma “coisa” sua?

João Cerqueira: Como refiro na minha página, sou influenciado por uma tradição literária  onde o humor predomina. Os textos satíricos e humorísticos começam com as Cantigas de Escárnio e Maldizer, prosseguem com o teatro de Gil Vicente, depois com a poesia Bocage, até chegarmos a Eça e Camilo. Mas, no século XX, a corrente Neorrealista acaba de vez com o humor. E, até agora, foram raros os autores que voltaram a usá-lo.

Seja como for, o humor é algo que me surge espontaneamente, não sob a forma de anedotas – aliás, não tenho jeito nenhum para as contar -, mas como uma forma de ver o absurdo do mundo e a loucura dos homens. Assim, o meu processo mental de transformar ideias em palavras escritas está, quase sempre, imbuído de humor. Há escritores que dizem que sofrem quando escrevem. Eu, geralmente, rio-me. Contudo, em Perestroika, o sofrimento dos personagens, como por exemplo a angústia da mãe que não tem comida para dar à filha ou as crianças vítimas de abuso, afectou-me. Para contrabalançar essa tensão, o humor aparece noutras partes do livro. Há um cônsul francês que se torna realizador de filmes pornográficos (A Perestroika na cama) para pagar a casa em Paris tentando convencer-se de que está a lutar contra a moral burguesa; e um cozinheiro louco que julga ter descoberto o efeito das batatas na saúde mental.

HT: Acha importante o humor na escrita?

João Cerqueira: O humor é uma das expressões mais sublimes da inteligência e está presente em quase toda a grande literatura. Como referi atrás, até ao século XX as principais obras da literatura portuguesa estão cheias de humor. Em Espanha temos o Dom Quixote de Cervantes. Em França o teatro de Molière e o Pantagruel de Rabelais. Em Inglaterra, o teatro de Shakespeare e As aventuras de Gulliver de Swift. Em Itália, Os noivos de Manzoni. Nos Estados Unidos, Mark Twain. Estas obras são muito diferentes quer no conteúdo, quer no estilo, mas une-as o humor como processo de análise e critica das relações humanas e dos diversos poderes que as tiranizam. O humor, além de divertir os leitores, é uma arma poderosa contra a estupidez e o fanatismo. 

Contra a censura.

HT: Acaba de lançar um novo livro: “Perestroika”. Como é que surgiu a ideia de escrever sobre este tipo de regime?

João Cerqueira: Já há algum tempo que alinhava ideias para escrever um romance sobre a Perestroika. Ainda me lembro da queda do Muro de Berlim e dos  povos dos países comunistas a exigirem liberdade nas ruas. Além disso, não há praticamente no mundo nenhum romance sobre o tema. Foi esquecido. Mas o grande empurrão para começar a escrever o romance deu-se em Madrid quando fui apresentar La Tragedia de Fidel Castro. As conversas que tive na altura com o meu editor espanhol, Max de la Cruz, foram determinantes para iniciar o projecto. E neste Verão o livro será traduzido para espanhol. Ressalvo que a sua editora – Funambulista – publica Fernando Pessoa.

No entanto, Perestroika não é um livro sobre política, mas sim sobre a natureza humana. É sobre a descoberta da verdade, a vingança, a catarse e a possibilidade de redenção. Passa-se num país imaginário – a Eslávia - , mas, com algumas modificações, conseguiria colocar o romance no período do Estado Novo ou noutra ditadura onde quem tem o poder pode abusar dos mais fracos com impunidade. Pedófilos, assassinos, ladrões, viciados em drogas, prostitutas e neonazis existem em todo o lado.

HT: É um livro cheio de personagens e pequenos enredos que se vão cruzando. Como é que funciona o processo de criação de personagens?

João Cerqueira: Para criar os trinta e oito personagens de Perestroika tive de fazer uma lista com os seus nomes, as suas características físicas e psicológicas, e o papel que iriam desempenhar num arco temporal de catorze anos. Essa lista aparece no início para facilitar a leitura. Alguns personagens têm nomes de figuras históricas, como o pintor Ludwig Kirchner, o comissário do povo para a cultura Zdanhov ou o próprio presidente Ionescu. Assim, sendo um romance de História alternativa, mantem ligações com a História real num jogo pós-moderno de metaficção.  Além de impulsionar a história, a sua interacção fá-los evoluir ao longo do tempo. Todos eles irão ser confrontados com escolhas dramáticas e com as consequências dos seus actos. Alguns irão pagar a descoberta da verdade com a própria vida, outros exorcizarão os seus demónios. A dificuldade foi não deixar uma única ponta solta, nenhum personagem perdido. E, no final, há uma reviravolta ou twist como dizem os americanos que espero que nenhum leitor seja capaz de adivinhar durante a leitura. 

HT: Para terminar, a pergunta do costume: tem planos para um próximo livro ou ainda está a “aproveitar” este.

João Cerqueira: Já estou a escrever há uns meses uma história pós-apocalítptica. Poderá chamar-se A Grande Catástrofe, ou o Bibliotecário do Fim do Mundo, ou A Mulher do Fim do Mundo. Só no fim saberei. Passa-se quarenta e oito anos depois desse fim do mundo e os personagens são os sobreviventes. As principais influência deste romance são os livros A Estrada de Cormac McCarthy, The Postman de David Brin (que grande livro), Estação Onze de Emily St. John Mandel, A última Fome de John Christopher, e, claro, a série The Walking Dead.

A grande dificuldade é entrar na cabeça de personagens que nunca existiram. Sabemos como pensava o homem medieval, mas nem os cientistas, nem os historiadores podem dizer como irá pensar alguém que sobreviva ao fim do mundo. Por um lado, é influenciado pelos vestígios da civilização, como os livros, mas, por outro, a lei da sobrevivência leva-o a comportar-se como um ser primitivo, ou um animal. 

E se em Perestroika há um quadro de El Greco que atravessa a história, neste novo romance é um quadro de Caravaggio que induz a heroína à revolta contra um tirano que criou uma cidade de escravos.


Entrevista a Nuno Ferrão

As entrevistas estão de volta ao Histórias Transmitidas, desta vez com Nuno Ferrão, autor do livro "Desamor". 
Obrigada ao Nuno pela disponibilidade para responder às minhas perguntas.

HT: Escreveu um primeiro livro juntamente com 3 autores e, entretanto, lançou a solo “Desamor”. Como surgiu a ideia deste livro?
O primeiro livro, o Estórias Limbidinosas, foi escrito com um amigo, o André Curvelo Campos, em 2010. Trabalhávamos na Agência Lusa. Eu na redação de Lisboa, ele na delegação de Bruxelas. Foi uma aventura inesquecível, escrever o devaneio por mails, os diálogos por messenger. O Desamor surgiu com um desafio inadvertido de um responsável por uma grande editora nacional. Quando avaliou o Estórias Limbidinosas, deu-me um valente raspanete. Disse-me que o livro faria corar Gil Vicente e que nenhuma mulher compraria. Que eu seria um escritor falhado, porque o mercado livreiro é dominado pelo público feminino e eu era incapaz de escrever para mulheres.

HT: Li algures que este era um livro “para mulheres” Acredita mesmo nisso ou acha que pode agradar a todos os géneros? Ou melhor, acha que o romantismo e as grandes histórias de amor são uma coisa exclusivamente feminina?
O raspanete ficou-me cravado. Ironia das ironias, o Estórias Limbidinosas mereceu um prefácio da Ana Markl e um posfácio da Joana Amaral Dias. Apesar de publicado  pela editora Afrontamento,  com a colaboração de duas mulheres, o raspanete não me saiu da cabeça e propus-me escrever um romance… para mulheres. Foi surpreendente, porque os ‘feedbacks’ mais emotivos que recebi foram-me enviados por homens. 

HT: Presumo que goste de ler. Em caso afirmativo, quais as suas referências literárias? 
Gosto muito de Boris Vian. Tenho as obras todas dele. O sarcasmo e a ironia proporcionam uma leitura ligeira e muito divertida. Também me impressionou a história de John Kennedy Toole, o escritor que recebeu o prémio Pulitzer a título póstumo, pela obra ‘Uma Conspiração de Estúpidos’. Depois de ser escrita, a obra foi rejeitada por vários editores norte-americanos, um cenário que levou o escritor a suicidar-se. Li e achei magnífico. Também gosto de José Prata. Adorei o ‘Os Coxos Dançam Sozinhos’. A obra de Dinis Machado, uma mistura de policiais com novelas. O ‘O Que Diz Molero’ é fenomenal e outro dos meus livros prediletos. Para mim, um livro é uma fonte de divertimento. Folheio avidamente as obras carregadas de ironia e provocação.

HT: O que acha do actual panorama literário português?
Posso dar o meu exemplo. Editoras com o calibre da Guerra & Paz, que acolhem escritores ‘desconhecidos’ é motivador. Acho que a aposta tem passado pelo lançamento de novos autores, o que alarga o leque de oferta.

HT: Para terminar, já está a trabalhar num novo livro? Se sim, pode levantar uma pontinha do véu?
Estou a começar um novo romance, a par de uma biografia. Claro que mantenho segredo. Sou supersticioso e não quero dar azar.

Entrevista a Lénia Rufino

Hoje publico uma entrevista com alguém de quem gosto muito: a Lénia Rufino.

Conheço a Lénia, ainda que virtualmente, desde que os blogs eram blogs. Sempre gostei da sua escrita e da forma "terra a terra" como encara a vida. 

A Lénia sempre quis ser escritora e, como mulher cheia de garra que é, acaba de editar o seu primeiro livro: "O Lugar das Árvores Tristes".

Do livro falaremos mais à frente. Hoje vamos ficar a conhecer um bocadinho melhor a Lénia, a quem aproveito para agradecer mais uma vez a disponibilidade para responder às minhas perguntas.


HT: Ora então, vamos começar por aquela que me parece uma pergunta inevitável: como e quando é que surgiu o gosto pela escrita? 

Eu apaixonei-me pela leitura muito cedo: sou filha única, os anos 80 não eram profícuos em ocupações de tempos livres para crianças, e eu passava muito tempo sozinha. Os livros tornaram-se na companhia habitual quando eu tinha uns 7/8 anos. Depois, por volta dos 10, no 5º ano, comecei a escrever uns contos, que eram uma espécie de fanfic de uma novela que dava na altura, chamada "Cinzas" (olá, Ricardo Carriço, e Sofia Sá da Bandeira!). Aquilo era muito mauzinho (os meus contos, não a novela), mas as minhas colegas ficavam ansiosas pelo capítulo da semana seguinte (acho que me especializei cedo em cliffhangers!) e aquilo incentivou-me a continuar. Depois fui percebendo que isto de contar histórias era uma coisa maravilhosa, que me preenchia. 

HT: Como é que uma mãe, profissional de marketing e ainda leitora compulsiva consegue arranjar tempo para escrever um livro? 

Não consegue... e por isso é que este livro demorou 9 anos a estar cá fora. O processo de escrita propriamente dito levou 4 anos. Comecei a escrever quando o meu filho mais novo tinha 1 ano. Na altura, eu estava em casa, tinha um trabalho em part-time e tinha começado a fazer bolos de aniversário (sim, fui cake designer durante 3 anos!). Pelo meio, a ideia deste livro começou a ganhar terreno e lancei-me a ela. Durante três anos escrevi muito pouco. Cada vez que me sentava para escrever, e porque tinha passado tanto tempo desde a sessão de escrita anterior, sentia necessidade de ler tudo o que já tinha escrito (e de fazer revisões e mais revisões...) e avançava muito pouco. Comecei a escrever este livro no final de 2012 e acabei no início de 2017. Nesta altura, já estava há dois anos a trabalhar a tempo inteiro (mas já não fazia bolos!). Os últimos seis meses de escrita do livro foram para escrever aí uns 70% dele. Ou seja, fiz um sprint no final. 

HT: Por falar em leituras, se fosses para uma ilha e só pudesses levar 3 livros, quais escolhias?

Esta é fácil: levava o Ensaio Sobre a Cegueira (que é o meu livro preferido de sempre), os livros da série Robert Hunter, do Chris Carter, o meu autor de thrillers de eleição (e sim, fiz batota, mas aqueles livros têm de ser lidos assim de enfiada, não dá para ler só um!), e o Crime e Castigo, do Fyodor Dostoyevsky, porque nunca li e acho que me ia ocupar uns dias. 

HT: Podes aguçar-nos ainda mais a curiosidade e falar um bocadinho do teu livro? 

Então, o meu livro surgiu porque um amigo meu tirou uma fotografia perto de um cemitério. Ele é um fotógrafo incrível e aquela imagem, que ele tirou sem grande preparação ou intenção, tinha uma carga dramática absurda. E levou-me a uma das minhas memórias de infância mais fortes: a do primeiro funeral a que eu assisti. Mas... o livro é muito mais do que aquele funeral. A partir dessa memória, conto a história de Isabel, uma rapariga que adora passear no cemitério da sua aldeia, que é um sítio onde ela encontra uma paz que não encontra em mais lado nenhum. Só que, a dada altura, percebe que não sabe como é que morreu uma das pessoas que está lá enterrada e vai à procura de respostas a uma coisa que, para ela, é simples de explicar e não tem nada que saber. Acontece que ninguém lhe conta como é que aquela mulher morreu e isso fá-la perceber que tem ali um mistério a morder-lhe os calcanhares. E, conforme procura respostas para isto, acaba por descobrir a história da sua própria família e daquela aldeia. E ali nada é exactamente o que parece...

HT: Para terminar, a escrita é para continuar, ou este "O Lugar das Árvores Tristes" vai ser "filho" único?

Não, seguramente que não! Aliás, tenho mais 6 manuscritos começados. Não sei se todos têm potencial para se transformarem em livros, mas sei que este não vai ser filho único. E espero que os próximos ganhem vida um dia destes. Não me imagino sem escrever, e estas histórias todas que guardo cá dentro "pedem" para serem contadas...

Entrevista a Nuno Nepomuceno

 Esta semana o nosso convidado para a rubrica entrevistas é Nuno Nepomuceno, que acaba de lançar mais um livro, O Cardeal.

Fiquem a conhecer um pouco melhor este autor português que é uma referência no atual panorama literário, e a quem aproveito para agradecer a disponibilidade para dar resposta às minhas questões.

HT: Como é que um controlador de tráfego aéreo se torna num escritor?

O meu gosto pela escrita começou com a leitura. Desde muito pequeno que fui habituado a ler pela minha mãe, que me levava a uma biblioteca itinerante que passava quinzenalmente na aldeia em que vivíamos. Para mim, era um grande frustração, uma vez que o bibliotecário não deixava que fosse eu a escolher os livros, para além dos três que era permitido trazer saberem a pouco. Mais velho, uma das minhas irmãs começou a oferecer-me coleções pelas ocasiões festivas, comprando-me um, ou dois, de cada vez, conforme podia.

Foi assim que aprendi a gostar de ler, algo que continuou durante a adolescência e a entrada na idade adulta, motivando uma curiosidade natural sobre como seria estar do outro lado, ou seja ser eu a ter o poder de escrever a história e assim ligar-me ao leitor. Diria mesmo que os livros têm-me acompanhado durante toda a minha vida, independentemente do rumo que tenha tomado nas diferentes fases pelas quais tenho passado. O facto de ter outra profissão é uma segurança pessoal. Desde cedo percebi que seria difícil viver exclusivamente da escrita, como é comum na grande maioria dos escritores portugueses.

HT: É fácil conciliar as duas coisas?

No início, foi. O facto de trabalhar por turnos tornava a gestão do tempo mais fácil, uma vez que me permitia ser mais flexível. Hoje em dia não é bem assim. Ambas as carreiras evoluíram bastante, o que me fez assumir mais responsabilidades tanto numa, como noutra, além da minha vida familiar ser consideravelmente mais complexa. Costumo dizer que sou preguiçoso, pois parece-me que hoje em dia nunca consigo fazer tudo o que quero, mas a verdade é que não o sou. Neste momento, manter as duas carreiras é um equilíbrio árduo, e tenho de trabalhar imenso para consegui-lo.

HT: Acabou de lançar o quinto livro da série Afonso Catalão, “O Cardeal”. Pode falar-nos um bocadinho sobre ele?

Vejo O Cardeal como um livro sobre segredos familiares, com personagens que gostam de livros, para pessoas que gostam de ler. O livro inicia-se com a morte de uma criança e com a descoberta de um cadáver de uma criança, dois crimes nos quais um escritor famoso, já conhecido dos leitores da série desde A Morte do Papa, é implicado. Mas será que foi ele, ou não, o responsável pelos homicídios? Que papel terá tido a irmã, Lizzie, uma leitora voraz?

O Cardeal é também um livro que considero de transição na minha carreira, onde espero que quem o leia encontre um escritor em amadurecimento, que não se limita a executar reviravoltas para chamar a atenção. Aliás, independentemente do desempenho comercial que o livro venha a ter, prefiro que seja reconhecido pela qualidade que tem, do que pelo reconhecimento que possa vir a trazer-me.

HT: Gosta de Ler? Se sim, quais as suas referências literárias?

Sim, bastante. Leio sobretudo thrillers, embora seja normal fazer algumas inflexões por outros géneros, como a fantasia, ou os romances históricos. Admiro bons narradores, como é, por exemplo, o caso de Ken Follett, cuja carreira merece a minha admiração. O livro que ando a ler atualmente intitula-se A Paciente Silenciosa, de Alex Michaelides

HT: Para terminar, sei que ainda é muito cedo, mas não posso deixar de perguntar: já pensa num novo livro ou ainda está a “aproveitar” este?

Atualmente, estou a trabalhar na reedição de O Espião Português, o meu primeiro livro, que a Cultura Editora irá lançar ainda este ano. Simultaneamente, ando a tomar algumas notas sobre o próximo volume da série Afonso Catalão, embora lentamente. Não gosto de trabalhar com duas personagens tão fortes em simultâneo.


Muito obrigado,

Nuno.


Entrevista a Dinnit Divo

Hoje temos como convidado da rubrica Entrevistas o autor Pedro Forra, mais conhecido por Dinnit Divo, a quem agradecemos desde já a disponibilidade para responder às nossas perguntas.

HT: É inevitável começar com esta pergunta: Como é que surgiu a ideia de publicar um livro e porquê a escolha do tema da homossexualidade?
Desde cedo que me imaginava como actor, em particular cinema era a minha grande paixão. Dava por mim a pensar que personagens gostaria de interpretar e acho que daí surgiu, também a paixão de criar personagens que eu gostaria de um dia representar. O tema da Homossexualidade surge da necessidade de acabar com o preconceito, uma vez que este continua a destruir vidas nos dias de hoje.

HT: O seu nome verdadeiro é Pedro Forra, certo? Porquê a escolha de um alter ego?
Um alter ego permite expandir-me, o Dinnit Divo dirá coisas que o Pedro se calhar não diria e, provavelmente, vice-versa.

HT: No livro, os personagens principais vêm-se obrigados a fugir do sítio onde moram devido ao preconceito para com os homossexuais. Ainda que estejamos num tempo mais avançado, qual é a sua opinião sobre a forma como estes casais são tratados em Portugal?
Não vivo em Portugal há 8 anos, e este afastamento esteve muito relacionado a discriminação e preconceito de que fui alvo. Felizmente, parece-me que cada vez mais as pessoas estão mais tolerantes e simpatizantes com as questões e direitos LGBT+, e a publicação deste livro num editora portuguesa é prova disso mesmo.

HT: A certa altura, durante a leitura do livro, pareceu-me que estava a ler um relato do holocausto. A escolha deste cenário para desenrolar da história do casal teve alguma inspiração neste acontecimento histórico?
Sim, o Diário de Anne Frank foi uma grande inspiração para mim. Crescer gay é também uma prisão, pelo menos para mim foi. Muitas vezes não podia ser quem era, era errado ser como sou. Razão pela qual só entre as quatro paredes do meu quarto, do meu diário eu podia verdadeiramente existir. Mas esta existência era condicionada, aprisionada.

HT: Acredita que o seu livro terá algum impacto na forma como a sociedade “trata” a comunidade LGBTQ?
Não digo na forma como a sociedade trata a comunidade LGBT+, mas se calhar às pessoas próximas de alguém LGBT+ ao lerem o livro consigam colocar-se na pele dos que sofrem este tipo de discriminação e exclusão.

Entrevista a José Rodrigues

Depois de Itamar Vieira Junior, regressamos à rubrica entrevistas com José Rodrigues, que acaba de editar o livro “O Tempo nos Teus Olhos".
Aproveito para agradecer ao José Rodrigues a simpatia e disponiblidade com que respondeu às minhas perguntas.

HT: Apesar de ter formação na área de Gestão e trabalhar como consultor, já vai no terceiro romance. Como é que surgiu este gosto pela escrita?

O gosto pela escrita é antigo, desde muito novo que escrevo sobre tudo o que me passa pela cabeça.  A minha vida profissional está rodeada de números, mas nunca esqueço que atrás dos números estão pessoas, sempre pessoas. Na nossa sociedade vemos constantemente, em vários sectores, os números substituírem pessoas. O “Joaquim” transforma-se no 49, a “Maria” no 38, ou o “António” no 89. Acontece que não é possível transformarmos emoções em números ou numerar a intensidade de um sentimento. De certa forma, o que escrevo, serve para refletir acerca da vertente humana da qual não fazem parte os números, do canto que existe dentro de cada um de nós, do que sentimos, do que nos faz rir e chorar, de tudo aquilo que são as condições para nos tornar mais felizes.

HT: Fale-nos um bocadinho deste seu último livro, “O Tempo nos Teus Olhos”.

É um romance que procura juntar as emoções mais simples que um ser humano pode ter e a importância que elas têm na nossa felicidade. Esta, que procuramos ao longo da vida, nem sempre aparece de forma complexa ou programada. Muitas vezes aparece quando menos contamos, numa das suas múltiplas formas de felicidade. E pode acontecer em simultâneo com um fenómeno importante de perda. No caso, Manuel, o personagem principal. Septuagenário e prestes a comemorar as bodas de ouro, perde a sua companheira de forma trágica. Mesmo assim, nem isso o impediu de continuar a procurar a felicidade, nem que para isso se afaste do socialmente correto, dos padrões instituídos ou das regras pré-estabelecidas. É uma odisseia, onde a solidão, a perda, a amizade e a família e claro, também o amor, se juntam e fazem com que se cruzem uma série de personagens de diferentes idades e profissões. 

HT: Presumo que goste de ler. Em caso afirmativo, quais as suas referências literárias? 

As minhas referências literárias são bastante viradas para o campo da poesia. Gosto de Mário Quintana, Cecília Meireles, Manoel Bandeira, Camões e Fernando Pessoa. 

HT: O que acha do actual panorama literário português?

Há claramente uma aposta nos novos talentos da literatura portuguesa. A minha Editora – Coolbooks, da Porto Editora, surge como uma lufada de ar fresco para a qualidade que existe nos jovens autores portugueses. Facilmente conseguimos encontrar muita qualidade, a meu ver, no nosso quotidiano literário. Conheço muitos e bons jovens talentos em Portugal.

HT: Para terminar, e uma vez que as suas obras foram lançadas com poucos meses de diferença, já está a trabalhar num novo livro? Se sim, pode levantar uma pontinha do véu?

Depois de um livro de memórias (“Boas memórias de um mau estudante”- edição de autor ), que dediquei aos amigos com quem partilhei histórias da vida universitária, como estudante trabalhador que sempre fui, os três romances que se seguiram foram escritos em três anos, um por cada ano. Já tenho o novo livro na cabeça, que será algo diferente, mas ainda muito na fase de reflexão, apenas ainda na cabeça.

Entrevista a Itamar Vieira Junior

Depois de alguns meses de ausência a rubrica "Entrevistas" está de volta.
Podemos afirmar que é um regresso em grande, uma vez que o nosso convidao é Itamar Vieira Junior, vencedor da edição 2018 do Prémio Leya.
Vamos ficar a conhecer um bocadinho melhor este autor, a quem agradeço desde já a disponibilidade e simpatia com que respondeu às minhas perguntas.


HT: Em primeiro lugar, para esclarecer os leitores portugueses, quem é Itamar Vieira Junior e como é que surgiu a escrita na sua vida?

Itamar Vieira Junior é um leitor, antes de mais nada. Lê literatura, ciência e filosofia. Lê o mundo e a vida. Talvez por isso escreva. 
A escrita surgiu em minha vida quando aprendi a ler. Lembro-me de, ainda criança, escrever textos de teatro para interpretá-los entre os colegas da escola. Desde então, nunca passei muito tempo sem escrever.


HT: Acaba de ganhar o prémio Leya com o seu romance Torto Arado. Pode falar-nos um bocadinho deste livro?

Torto Arado é um romance de formação, na tradição do “Bildungsroman”. Narra a história de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, que vivem cativas, como outros trabalhadores, numa fazenda do interior do Brasil. Um acidente tornará as duas inseparáveis a tal ponto que não sabemos quando uma vida começa e a outra termina. Elas narram a história de três décadas de suas vidas na Fazenda Água Negra, e tudo mais que não tenha escapado à memória de seus pais: desde a injustiça advinda da servidão a que estavam submetidas, e por consequência as lembranças da escravidão, até os encantos da magia praticada pelo pai, e os conflitos por terra, que podem levá-las a transgredir as condições de vida que lhes foram impostas. É uma história de segredos, vida e morte, luta e redenção de personagens que atravessaram o tempo sem serem conhecidos


HT: Que importância tem este prémio na sua carreira?

O Prémio LeYa é o maior prémio literário para uma obra inédita em língua portuguesa. É um prémio que leva o vencedor aos grandes eventos literários dos países lusófonos e ibérico. O livro é publicado por uma das maiores editoras do mundo. Sem dúvidas, pode impulsionar a carreira de qualquer escritor.


HT: Gosta de ler? Em caso afirmativo, quais os seus escritores de referência?

Ler é minha grande paixão. Escrever é consequência desta paixão. 
Tenho muitos escritores de referência que elevaram a  literatura em língua portuguesa ao longo do século: Machado de Assis, Eça de Queirós, Clarice Lispector, Jorge Amado, José Saramago, Carlos Drummond de Andrade e Maria Teresa Horta. 
Há muitos escritores, que escrevem em outras línguas, que também são referências: Toni Morrison, Junichiro Tanizaki, Amós Oz, Dostoievski e Tolstoi, só para citar alguns.


HT: Para terminar, já pensa num novo livro?

Penso. É um projeto que demandou pesquisa e que já deveria estar iniciado, mas as dificuldades que vivemos hoje no país, principalmente com a atual eleição presidencial  - e no meu caso também o Prémio LeYa e a indicação ao Jabuti – fizeram com que adiasse um pouco a escrita desse novo trabalho.

Entrevista a Carrie Elks

Depois de alguns meses de pausa, voltamos com uma nova entrevista.
A nossa convidada é Carrie Elks, autora do livro "Foste Sempre Tu", editado pela Planeta.
Obrigada à Carrie pela simpatia e disponibilidade com que respondeu às minhas perguntas.

HT: What made you start writing? (O que a levou a começar a escrever?)
Carrie Elks: I’ve always loved reading books, and it felt like a natural progression to try writing one. The first time I tried to write a book I was a teenager, and it wasn’t very good! I then tried on and off for years, and only really became serious about writing in 2013, when I wrote Fix You (Foste Sempre Tu in Portugal). Since then I’ve written a number of books, and have been fortunate enough to have 5 of them published so far!
(Eu sempre gostei de ler, e a escrita aconteceu naturalmente. A primeira vez que tentei escrever um livro foi quando era adolescente, e não correu muito bem. Fui tentando durante anos, mas só se tornou real em 2013, quando escrevi Fix You (Foste Semper Tu em Portugal). Desde então escrevi uma série de livros e tive a sorte de ter 5 deles publicados até agora!)

HT: Where do you get your ideas to the books? (Onde vai buscar as ideias para os seus livros?)
Carrie Elks: My ideas nearly always start with the characters. I often visualise a scene where there’s conflict between the hero and heroine, and from there I have to work backwards and find out why there’s conflict and what made the characters behave that way. Fix You (Foste Sempre Tu) is the perfect example of this – in the prologue there is a big argument between Richard and Hanna, and the book then explores how they first meet and build up to this scene. In other books the conflict may take place later in the story, but it’s always there.
(As minhas ideias começam quase sempre com os personagens. Muitas vezes visualizo uma cena onde há conflito entre o herói e a heroína, e a partir daí tenho que trabalhar para trás e descobrir por que há conflito e o que fez com que os personagens se comportassem dessa form. Fix You (Foste Sempre Tu) é o exemplo perfeito disso - no prólogo há um grande argumento entre Richard e Hanna, e o livro explora como se conheceram e se desenvolveram nesta cena. Noutros livros, o conflito pode acontecer mais tarde na história, mas está sempre lá.)

HT: How does your writing process works: believe in inspiration or have a pre-arranged time to write? (Como funciona o seu processo de escrita: acredita na inspiração ou tem um horário pré-estabelecido para escrever?)
Carrie Elks: It’s a little bit of both. I try to write every day; it’s a good habit to get into and I do believe that it’s the only way to get a book finished. But I still have good days and bad days – sometimes I’ll only end up with a few hundred words, and on other days I’ll write 5000 words and they flow perfectly. Either way, it takes a lot of hard work and determination to write a book!
(É um pouco de ambos. Tento escrever todos os dias; É um bom hábito e acredito que é a única maneira de conseguir um livro acabado. Mas ainda tenho dias bons e dias maus - às vezes só escrevo algumas centenas de palavras, e noutros dias escrevero 5000 palavras e elas fluem perfeitamente. De qualquer forma, é preciso muito trabalho e determinação para escrever um livro!)

HT: Of all his books, you can choose the one that gave him more pleasure to write? (De todos os seus livros, consegue escolher aquele que lhe deu mais prazer ecsrever?)
Carrie Elks: Probably Fix You (Foste Sempre Tu). The story seemed to flow very easily, and I fell in love with the characters of Richard and Hanna almost straight away. From the moment I wrote the prologue I was eager to find out why they hated each other so much – and that made writing the book so much fun!
(Provavelmente Fix You (Foste Semper Tu). A história parecia fluir muito facilmente, e eu apaixonei-me pelos personagens de Richard e Hanna quase imediatamente. Desde o momento em que escrevi o prólogo, fiquei ansiosa para descobrir porque é que eles se odiavam tanto - e isso fez com que escrever o livro fosse tão divertido!)

HT: What changed in your life after the release of the first book? (O que mudou na sua vida depois da publicação do primeiro livro?)
Carrie Elks: Not very much, really! Fix You was first released in Brazil in October 2014 (it wasn’t released in the UK until December 2014) – and although I got a lot of lovely Facebook messages from my Brazilian readers, it didn’t change my every day life. I just got on with writing the next book, being a mum and working at my job!
(Não muito, realmente! Fix You foi lançado pela primeira vez no Brasil em outubro de 2014 (não foi lançado no Reino Unido até dezembro de 2014) - e apesar de ter recebido muitas mensagens agradáveis no Facebook dos meus leitores brasileiros, não mudou minha vida diária. Acabei de escrever o próximo livro, sendo uma mãe e trabalhando no meu trabalho!)

HT: I assume you also enjoy reading. What are your favorite writers? (Deduzo que também goste de ler. Quais os seus escritores preferidos?)
Carrie Elks: Reading books is my favourite thing to do! I love all genres, but in particular I enjoy women’s fiction and romance. My current favourite writers are Julie Cohen, Mhairi McFarlane and Sarah Morgan. All of them write beautifully, and have great stories and characters! 
(Ler é a coisa que mais gosto de fazer! Eu gosto todos os géneros, mas em particular gosto de ficção e romance feminino. Os meus escritores favoritos atuais são Julie Cohen, Mhairi McFarlane e Sarah Morgan. Escrevem todos lindamente, e têm grandes histórias e personagens!)

HT: Finally, what are your writing projects for the future? (Para terminar, quais são os seus projectos de escrita para o futuro?)
Carrie Elks: In the UK I have 3 more books in my new Shakespeare Sisters series to release (the first, Summer’s Lease, released in July 2017 in the UK and USA. A Winter’s Tale, the second in the series, releases in November 2017). There are 4 books in the series, and each book tells the story of one of the sisters. I’ve really enjoyed writing this series, and can’t wait for them all to be released.
This new series will also be published in Brazil, France and Turkey, and I will hopefully have news of a Portuguese release soon!
(No Reino Unido, tenho mais 3 livros na minha série Shakespeare Sisters para lançar (o primeiro, Summer's Lease, lançado em julho de 2017 no Reino Unido e nos EUA. A Winter's Tale, o segundo da série, é lançado em novembro de 2017). Existem 4 livros na série, e cada livro conta a história de uma das irmãs. Gostei muito de escrever esta série, e estou ansiosa para que todos sejam lançados.

Esta nova série também será publicada no Brasil, na França e na Turquia, e espero ter notícias de um lançamento em português em breve!

Entrevista a Daniel Jonas

Esta semana o entrevistei Daniel Jonas, vencedor da edição deste ano do Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes.

HT: Tem quatro livros de poesia publicados. Como surgiu o gosto pela escrita e porquê a poesia?
Daniel Jonas: Não consigo datar com precisão o gosto pela poesia, mas a sua prática mais séria, digamos assim, ocorreu pelos meus dezoito anos, mais ou menos, e foi acirrado por um estímulo externo, concretamente o de uma professora de Português que viu ali, embrionariamente, qualquer coisa de prometedor, bondade dela, com certeza...

HT: Presumo que goste de ler. Em caso afirmativo, quais as suas referências em termos literários?
Daniel Jonas: Em termos literários as minhas referências são razoavelmente vastas, vastas de mais para assinalar aqui alguns sem claro prejuízo para outros. Aliás, sempre que me ensaio em exercícios de ilha deserta deste modo não passam cinco minutos sem que ponha a mão na cabeça por me haver esquecido deste ou daquele escritor. Privilegio a leitura de figuras mais ou menos declaradamente canónicas, mas também poetas menores e figuras literárias satélites de outros nomes maiores. Não lhe sei sequer dizer quais os meus autores preferidos. 

HT: O que acha do actual panorama literário português?
Daniel Jonas: O actual panorama literário português é muito diversificado e muito vitaminado. Diria mesmo que há mais escritores do que leitores. O que faria, por exemplo, da presunção implícita na sua anterior pergunta uma presunção bastante justificada.

HT: Acabou de vencer o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes. Que mudanças acha que esta distinção lhe vai trazer?
Daniel Jonas: Os prémios são tão subjectivos quanto por estes dias o prémio PEN ter sido atribuído ex-aequo a dois poetas, dos quais nenhum sou eu (nem tampouco fui para isso nomeado). Ou seja, é uma decisão que depende inteiramente dos seus respectivos jurados e se calhar dos seus humores de momento, o que não quer dizer que não me sinta evidentemente muito sensibilizado e contente por tal e tal elemento do júri se ter decidido por mim. Quanto às repercussões de tal distinção, penso que me dá mais algum fogo de momento, para este motor de explosão que alimenta a minha inclinação poética.

HT: Para terminar, está a trabalhar num novo livro? Em caso afirmativo, pode levantar-nos a “pontinha do véu”?
Daniel Jonas: Sim, estou a trabalhar num livro de poemas, diria liricamente mais generalista, intitulado “Bisonte”. Deverá vir a público no primeiro trimestre do próximo ano.       

Entrevista a João Pinto Coelho

Esta semana entrevistei João Pinto Coelho, um dos finalistas do Prémio Leya e autor do livro “Perguntem a Sarah Gross”, que nos fala sobre Auschwitz.
Muito Obrigada ao João pela sua participação.

HT: “Perguntem a Sarah Gross” é o seu primeiro livro. Fale-nos um pouco do que o levou à escrita e o porquê da escolha do tema Auschwitz?
João Pinto Coelho: Para lá da resposta clássica, que nos fala da escrita como uma projeção de tudo o que já lemos, há sempre a ideia, a semente do romance. É o vislumbre da história, um esboço, muitas vezes escasso e irrisório, mas a que nos agarramos. O livro constrói-se a partir daí, o resto são adições e subtrações; novas histórias que se incorporam, momentos e personagens que se riscam, desenlaces que se substituem, todas as dores de crescimento que os escritores conhecem e os leitores deduzem. Perguntem a Sarah Gross cresceu assim. E fê-lo em terrenos agrestes, numa pequena cidade do sul da Polónia, a que os alemães resolveram chamar Auschwitz em 1939. Escrevi sobre Auschwitz porque senão não saberia o que escrever. Sempre soube que se algum dia viesse a escrever alguma coisa, seria sobre Auschwitz, sobre a Shoah. Deixei-me agarrar pelo Holocausto há mais de trinta anos, quando descobri que aquele absurdo foi, afinal, plenamente humano; quando percebi que os homens que sujaram as mãos com tanto sangue inocente eram acusativamente parecidos comigo, parecidos com as pessoas que vejo todos os dias ao meu lado, tão capazes de serem generosas. E é essa perturbação que me mantém obstinado, interrogativo: em que circunstâncias poderíamos nós, poderia eu, fazer as escolhas erradas, as mesmas escolhas do guarda SS. Por outro lado, havia uma coisa que, inexplicavelmente, nunca tinha aparecido de forma aprofundada na ficção literária produzida em torno do Holocausto. Falo da cidade de Auschwitz, antes do campo de Auschwitz. O que existia ali antes de o Inferno se instalar? Que cidade era aquela que se fez campo de extermínio? O que o livro faz é mostrar-nos, através do olhar de duas famílias judias, como aquele lugar feliz se transformou num símbolo material do Mal absoluto. 

HT: Pode falar-nos um pouco do livro?
João Pinto Coelho: A narrativa divide-se por dois tempos e dois lugares: Auschwitz, na Polónia, desde o final da Primeira Guerra Mundial até ao ano de 1945, e Shelton, nos Estados Unidos, num colégio elitista do Connecticut, no final dos anos 1960. O romance conta-nos as histórias de duas mulheres, Sarah Gross, uma judia nascida em Chicago e que conheceu de perto o tormento do Holocausto, e Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura Americana, uma mulher igualmente marcada por um passado traumático. Pela interseção das vidas dessas duas protagonistas, o livro revela-nos os seus dramas privados, os contextos em que ocorreram. 

HT: Foi finalista do prémio Leya.  Acha que isso teve alguma importância na promoção do seu livro?
João Pinto Coelho: É natural que sim, trata-se de um prémio com um peso mediático relevante. Ainda assim, estou convencido de que mais importante do que isso foi a reação da crítica e, acima de tudo, o cruzamento das opiniões dos leitores.

HT: Gosta de ler? Em caso afirmativo, quais os seus escritores de referência?
João Pinto Coelho: Não conheço nenhum escritor que não goste de ler, e eu não sou exceção. Sou um leitor compulsivo desde muito novo. Por outro lado, todos os escritores que li se transformaram nos meus autores de referência, até os maus. Não consigo identificar o que me ficou deste ou daquele livro, deste ou daquele autor. Por vezes até um mau livro oferece momentos magistrais, uma simples palavra que fica. Mas, se é verdade que bebi de todos, é óbvio que há autores de quem gosto mais, e que, por isso, leio e releio. E a lista é vasta, garanto, tal como o conjunto de géneros literários. É-me impossível dizer se gosto mais de Hergé ou de Eça; quem é melhor? Edgar Pierre Jacobs ou Hemingway?

HT: Para terminar, pensa voltar a escrever?
João Pinto Coelho: Sim. Mas não é uma obsessão, há que aguardar pela tal ideia seminal.

Entrevista a Mónica Canário

Esta semana a minha convidada para a rubrica entrevistas é Mónica Canário, autora do livro Vivo-te, e a quem agradeço mais uma vez a disponibilidade para responder às minhas perguntas.
Vamos ficar a conhecer um bocadinho melhor esta autora e a sua obra:

HT: É inevitável começar com esta pergunta: Como é que surgiu a ideia de publicar um livro?
Mónica Canário: Talvez esta resposta seja diferente de alguns autores mas o objectivo não era publicar um livro. Quando o comecei a escrever tinha 16 anos e não estava muito bem psicologicamente. A escrita deste livro veio depois de a minha professora de Português ter dito que eu devia investir mais nesta área. E assim fiz. Investi tudo e fiz da escrita o meu porto de abrigo. Podia ter corrido pior: o que era para ser um desabafo, um escape à realidade, acabou por ser uma resposta no futuro.
Mas sabe tão bem! Depois de me terem devolvido o livro de tantos concursos literários, de o ter posto na gaveta e de achar que não valia nada, a Chiado Editora apareceu (por iniciativa de uma amiga da família) e veio mexer com alguns fantasmas. Porque se sabe bem ver este objectivo realizado, também custa reviver os tempos que me fizeram escrevê-lo. O segredo aqui é não desistirmos de nós e encontrarmos apoio em quem realmente gosta e acredita em nós.

HT: Como correu o processo de edição?
Mónica Canário: Para quem esperou seis anos e meio desde a primeira palavra até ao livro em si, acho que poderia ter suportado bem cinco meses e meio, mas foi uma tortura! Depois de ter assinado o contrato com a Chiado Editora, já só pensava em ter o livro comigo. Como é óbvio, existiram muitos contratempos, está sempre tudo sujeito a aprovação do autor e o tempo que o livro está na gráfica parece não ter fim… Mas o mais difícil foi ter de pagar uma parte da edição. Tive de comprar 120 livros e na altura pensei “E agora? O que é que eu faço com isto? Será que algum dos meus amigos os quer comprar?”. Houve até uma altura em que achei que ia ter prendas de Natal e de aniversário para oferecer durante bastante tempo! Depois do lançamento percebi que 120 eram poucos para a procura que o livro estava a ter.

HT: Para quem, como eu, ainda não leu este livro, pode falar-nos um bocadinho sobre ele?
Mónica Canário: O “Vivo-te” é a história de uma rapariga de 17 anos, a Sophia, que no auge da sua juventude descobre que tem leucemia e ao mesmo tempo apaixona-se pelo Dinis. O início do livro explica como a Sophia é desapegada de sentimentos e que vive muito para a família e o seu grupo de amigos. No entanto, aparece o Dinis que vem mudá-la. Só que aparece numa altura menos boa da vida da dela.
A minha personagem favorita é, sem dúvida, a Mafalda (a melhor da Sophia). É uma lufada de ar fresco e de energia na história. Além disso, a própria personagem tem um significado muito importante e especial para mim.

HT: O que mudou na sua vida depois da publicação do livro?
Mónica Canário: Tudo! Eu tinha tudo muito bem estruturado, sabia o que queria e quando queria. Depois do contacto da Chiado Editora até ao lançamento do “Vivo-te” as coisas tornaram-se como um sonho: eu ia lançar um livro sim, mas ele ainda não era real (entenda-se “de papel”)! Depois do lançamento foi quando eu percebi que tinha sido a concretização de um sonho, que tudo era real. Foi aí que pensei “Ena Mónica, se calhar até és mesmo capaz de tudo”. Verdade seja dita, é um livro. E eu tenho 22 anos…
Acima de tudo, acho que as pessoas começaram a perceber que eu até tenho algum valor. Que até sou capaz de coisas engraçadas. Este livro foi um desafio para mim, mas é mais uma prova que eu tinha de dar ao mundo, algo do género “Eu estou. Vergo e choro muitas vezes. Tu até podes deitar-me abaixo todos os dias, mas eu não vou desistir de ti”.

HT: Para terminar, sei que ainda é muito cedo, mas não posso deixar de perguntar: já pensa num novo livro ou ainda está a “aproveitar” este?
Mónica Canário:  Por agora estou a aproveitar, até porque ainda há muito para fazer até chegar à 2ª edição. Vou ser tendenciosa e dizer que a ajuda de quem ler esta entrevista é preciosa para isso, uma vez que os 500 livros têm de ser vendidos até Setembro de 2016 para que tal aconteça. Decidi que é tempo de ir por metas: lança-se um livro, apresenta-se ao público, vende-se o que se tem e só depois se pensa na segunda edição. Relativamente a novos livros, tal como já disse, escrever foi sempre o meu porto de abrigo. Tenho duas histórias encaminhadas que serão terminadas assim que terminar a tese de mestrado. Espero que este tenha sido o primeiro de muitos porque me vejo perfeitamente a conciliar a escrita com a investigação em Ciências Sociais. Até lá, vou escrevendo crónicas para um jornal online, o Ideias e Opiniões, e vou desabafando com o papel, que me lê, aceita e não me julga.

Entrevista a João Cerqueira

Esta semana o meu convidado é João Cerqueira, autor do livro "A segunda vinda de Cristo à Terra", que recebeu a medalha de prata no 2015 Latino Book Awards, e a quem agradeço novamente a disponibilidade para responder às minhas perguntas.
Podem acompanhar o Percurso Literário de João Cerqueira no seu site: http://www.joaocerqueira.com/

HT: O João tem uma vasta obra já publicada: Como é que surgiu o gosto pela escrita?
João Cerqueira: Tive a sorte de herdar do meu pai uma biblioteca com centenas de livros, onde não faltava nenhum dos clássicos. Nela descobri aos dezoito anos A Leste do Paraíso de John Steinbeck; descobri então que dentro de cada homem ou mulher se podem esconder demónios e monstros muito mais aterradores do que eu poderia imaginar. Nessa altura li também o Cosmos de Carl Sagan, que me ensinou a entender o universo. Estes são os livros que me iniciaram na idade adulta. Li então duas obras marcantes: 1984 de George Orwell e Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, cujas profecias distópicas estão a ser cumpridas. Depois, destaco O Elogio da Loucura de Erasmo por me ter ensinado que, para triunfar na vida, é preciso ser louco_ qualidade que eu interpreto como ser audacioso, imaginativo e fiel a si próprio. E como o tema do desvio e da transgressão também me interessa, considero importante o livro A guerra do fim do mundo de Vargas Losa e os contos O alienista de Machado de Assis, O carrinho de mão de Pirandello e O gorila de Sérgio Sant’anna.

HT: Ao longo da sua carreira tem ganho vários prémios no estrangeiro, mais concretamente nos Estados Unidos. Isto é o resultado da promoção que faz lá fora ou da falta de interesse de Portugal na sua obra?
João Cerqueira: Quanto aos prémios que tenho ganho no estrangeiro – há semanas o meu conto Um casa na Europa venceu em Itália o Speakando European Literary Competition e a tradução inglesa ficou em terceiro lugar no Ebook me up competition na Austrália – não se trata de promoção, mas, atrevo-me a dizer, apenas de mérito. The Tragedy of Fidel Castro concorreu a seis prémios e venceu três e A segunda vinda de Cristo à Terra ficou em segundo lugar no 2015 Latino Book Award, que tem o apoio da American Library Association.  Infelizmente, em Portugal  a maioria dos jornais e revistas não deram estas notícias. A editora e eu próprio enviamos press releases para mais de cinquenta jornalistas da área da cultura e, à excepção de Sérgio Almeida do JN, nem sequer nos respondem. Pelos vistos, não consideram importante que um autor português vença prémios internacionais e seja publicado nos EUA, Inglaterra, Itália e, em breve, Espanha e Argentina. O Seatlle Post, o EL Nuevo Herald, o Examiner, a The American Culture e o Silvio Canto Radio Show, divulgam o meu trabalho, mas os jornais e as revistas portuguesas ignoram-me. No nosso país, a cultura é uma ‘’coutada de amigos’’ – e eu não faço parte do grupo.

HT: Presumo que goste de ler. Em caso afirmativo, quais as suas referências em termos literários?
João Cerqueira: Recentemente li dois livros extraordinários: Stoner de John Williams e O primeiro círculo de Alexandr Soljenitzine. Stoner narra a história de um homem que, apesar da dedicação ao emprego e à família, acaba por perder tudo. O primeiro círculo conta a vida dos prisioneiros soviéticos durante o regime de Estaline, sendo, apesar de todos os horrores, uma inesperada comédia.
Recomendo sempre a leitura de Um Deus passeando na brisa da tarde de Mário de Carvalho.
E como referências, destaco Marcel Proust, Franz Kafka, Pär Largerkvist, Mikhail Bulgakov, George Orwell, Phillip Roth, Cormac MacCarthy, Paul Auster, Gunter Gräss, W. G. Sebald, Italo Calvino, Henrique Vila-Matas, Mario Vargas Llosa, Fialho de Almeida, Eça de Queirós (Cartas), José Saramago, Lobo Antunes, Dulce Maria Cardoso e Sérgio Sant’Anna (o maior escritor brasileiro vivo).

HT: O que acha do actual panorama literário português?
João Cerqueira: Não me devo pronunciar sobre esse assunto. 

HT: Para terminar, está a trabalhar num novo livro? Em caso afirmativo, pode levantar-nos a “pontinha do véu”?
João Cerqueira: Espero publicar no próximo ano 25 de Abril: corte e costura. Trata-se de uma sátira, não ao 25 de Abril, mas ao regime democrático criado a partir da revolução. O tema principal do livro é a incapacidade das forças políticas nacionais se entenderem e cooperarem, por estarem mais empenhadas em se afrontarem do que em resolver os problemas do país. Atrevo-me pois a pensar que, por abordar a crise política, financeira e moral em que Portugal se encontra, o livro irá suscitar debate e controvérsia.

Entrevista a Helder Martins

Esta semana o meu convidado para a rubrica entrevistas é Helder Martins, a quem agradeço desde já.
Podem ficar a conhecer melhor o trabalho deste autor através da sua página: https://www.facebook.com/Tellargya

HT: É inevitável começar com esta pergunta: Como é que surgiu a ideia de publicar um livro?
Helder Martins: Bem, esta é uma ideia já um pouco antiga. Não a ideia de escrever mas a história aqui hoje transcrita. Eram personagens que na minha mente via interagir, a relacionar-se. Eram peripécias e jornadas que por vezes acompanhavam-me no caminho para a escola. Imaginava acontecimentos e formas de os cruzar sobre possíveis imprevistos. 
A ideia de escrever um livro, isso sim, surgiu mais tarde. De imaginativo passei a grande amante da literatura fantástica. Sem gostar de ler de todo encontrei o tema que para mim era estimulante. E encontrei-o, na larga colecção de fantasia épica de que hoje sou detentor.
Com os vários desafios propostos no percurso escolar fui adquirindo as ferramentas necessárias para avançar num pequeno hobbie: a escrita. Em períodos livres fazia-me acompanhar por um caderno e uma caneta e transcrevia uma ideia antiga. Mais consistente, mais elaborada. Via personagens familiares ganharem um corpo e um propósito. Sentava-me nas mesas dos cafés pela inspiração que me traz, escutava um pouco de música de japonesa pelo ambiente de uma letra que não me prende a mente e quando dei por mim havia terminado um primeiro volume. 

HT: Como correu o processo de edição?
Helder Martins: Claramente um processo de grande ansiedade. Terminado um primeiro livro sentia-se agora a necessidade de saber que estava tudo em conformidade. Foram feitas correcções e revisões sobre a primeira crítica de uma pessoa, a mim muito querida, que mesmo não gostando do tema conseguiu identificar-se e entusiasmar-se com a forma como a componente humana estava ali tão bem delineada num mundo de fantasia. 
Registado os direitos de autor era então o momento de enviar para possíveis interessados. Satisfação a minha pelas respostas inicialmente tidas e por um feedback positivo. Ponderando a proposta da Chiado Editora e mais seriamente no saber de quem me dizia ter algo ao meu alcance e puder realizá-lo, acabei por iniciar o processo de edição. 
A expectativa era crescente de dia para dia. A chegada de uma proposta para capa, a paginação da obra, o encontrar o espaço ideal para o meu lançamento no mundo literário, a promoção e divulgação. Foi todo um período de muita ansiedade acrescidos de uma personalidade que procura não falhar. 
E finalmente com o tacto do meu primeiro livro em mãos e de um auditório preenchido com presenças importantes e até mesmo surpreendentes, permiti-me então relaxar, sabendo que realizei aquilo que era afinal um sonho e de ter construído o que espero ser uma companhia e uma inspiração para qualquer pessoa. 

HT: Para quem, como eu, ainda não leu este livro, pode falar-nos um bocadinho sobre ele?
Helder Martins: Claro que sim. Bom, esta é uma história que tem lugar num mundo de fantasia criado por mim. Todo um continente e ilhas, numa época medieval, com uma origem peculiar e justificada mas que deixarei à vossa curiosidade.
Sobre a história em si: esta é a vida de um jovem aldeão, perito nas artes mágicas mas que vê a sua vida restringida pelo dever à família. Cedo perde o pai e assume toda uma precoce responsabilidade, o que de certa forma o amargura quanto à sua necessidade de querer reconhecimento e poder.
Numa noite de humores mais carregados e sentimentos à flor da pele dá mostras de um poder antigo e com ele a possibilidade de ser a reencarnação de um dos criadores de Tellargya. Como consequência de uma atitude irracional desperta por todo o continente o retomar da eterna batalha entre o bem e mal. E como tal, esta personagem principal vê a sua aldeia destruída e a sua irmã raptada. 
A jornada começa então na companhia de um peculiar dragão e entre eles o verdadeiro conceito de amizade e lealdade, por todo o continente com base num tópico que penso que cativará os leitores. O verdadeiro conflito interior e a forma como nos moldamos sobre escolhas entre os nossos próprios desejos e objectivos e o ter, que por vezes, deixar de lado esses mesmos compromissos para fazer o que é moralmente correcto. 

HT: O que mudou na sua vida depois da publicação do livro?
Helder Martins: Curiosa pergunta. Um pouco pela surpresa que foi e também arrisco a dizer orgulho de quem me conhece penso que consegui um pouco daquele reconhecimento que também procurava. Aquele desejo, de vermos na realidade e já pelas várias mãos que tocaram o meu livro, o sermos recordados. 
Tenho conhecido também pessoas muito interessantes. Aprendido e crescido com outras experiências e opiniões. E de um feedback que até então tem sido positivo, mesmo de leitores cujo tema nem lhes é apelativo mas que pela forte componente humana se reveem, mudou o meu compromisso para com este projecto que antes era um hobbie. Por quem já leu e me pergunta sobre uma continuação passei a escrever com uma maior regularidade. 
Numa nova fase que é a passagem pelas escolas, mesmo aquelas por onde passei, num apelo também à importância da leitura tenho sido bem acolhido e até então tem sido muito gratificante a realização desta obra.

HT: Para terminar, sei que ainda é muito cedo, mas não posso deixar de perguntar: já pensa num novo livro ou ainda está a “aproveitar” este?
Helder Martins: Ambas as situações. Presentemente, estou em vias de concluir o segundo volume. Posso adiantar que está repleto de um maior mistério e suspense. Há novas personagens, novos enredos que se cruzam entre si. Sinto-me bastante satisfeito com a forma como os capítulos vão surgindo, tornando-se muito interessantes. 
Mas continuo também a promover o primeiro livro das Crónicas de Tellargya. Dos meus círculos pessoais tenho conseguido passar aquela companhia literária. E penso que é possível chegar ainda mais longe. Alcançar mais leitores e retirar novas críticas. E ao mesmo tempo abrir caminho para o que acredito ser uma grande saga.  










Entrevista a Sofia Ferros

Depois de uns dias de ausência, devido ao excesso de trabalho, voltamos às entrevistas, esta semana com Sofia Ferros, autora do livro "AMOR entre GUERRAS".
Muito obrigada à Sofia pela disponibilidade e simpatia com que respondeu às minhas perguntas.

HT: A Sofia é licenciada em Gestão de Empresas e trabalha na área de marketing, certo? 
Sofia Ferros: Sim, licenciei-me na Universidade Católica Portuguesa e comecei a trabalhar como técnica comercial numa empresa nacional, agente de um dos maiores produtores mundiais de cartões bancários e de telecomunicações. Fazia a gestão de projetos e apoiava os comerciais na parte técnica da venda de produtos complexos, entre os quais cartões chip, que há dezassete anos eram ainda uma novidade no mercado. Mais tarde trabalhei em agências de publicidade e comunicação, bem como numa empresa de consultoria. Há quatro anos, quando fui viver para a Cidade do Cabo, na África do Sul, constituí uma empresa de marketing digital, após ter concluído uma pós-graduação nesta área.

HT: Como é que surgiu a ideia de escrever um romance?
Sofia Ferros: Quando era criança queria ser escritora, mas durante a adolescência surgiram outros interesses e optei pela Gestão de Empresas.
Em 2008, visitei a minha família francesa e o Château de Tourlaville, palácio onde os meus bisavós se haviam apaixonado, durante a Primeira Guerra Mundial.
As primas da minha avó, ambas sem descendência e já na casa dos noventa, contaram-me vários pormenores dessa história de família que quis registar para as gerações futuras.
À medida que escrevia, aumentava a vontade de investigar as razões por trás das escolhas pouco comuns do casal, particularmente da minha bisavó, uma mulher de pensamento avançado para a época, que queria ser médica e se interessava por questões políticas. Mais tarde, concluí que a história destes meus antepassados tinha conteúdo para um romance e lancei-me no desafio de concretizar um sonho antigo e escrever um livro.

HT: Para quem, como eu, ainda não leu este “Amor entre Guerras”, pode falar-nos um bocadinho sobre ele?
Sofia Ferros: Começa em 1916, quando a Alemanha declara guerra a Portugal. Miguel, um jovem médico do Porto integra o Corpo Expedicionário Português e parte para a frente de combate em França, onde se encontra quando os alemães lançam um ataque devastador que aniquila as tropas portuguesas — a Batalha de La Lys. Para cumprir uma promessa feita a um amigo no campo de batalha, Miguel desloca-se a Cherbourg durante uma licença. Conhece Alexandrine no Château de Tourlaville, que havia sido transformado em hospital de guerra.
Sobrevivem à guerra, casam-se e moram em Paris durante os meses conturbados em que decorre a Conferência de Paz. Mais tarde, Miguel aceita uma oportunidade profissional em Lourenço Marques, Moçambique, onde o casal viverá longos anos. O romance termina com o deflagrar da Segunda Guerra Mundial.
Além da história de amor entre os protagonistas, este livro retrata a sociedade da época: a luta das mulheres pela emancipação e direito ao voto, a luta dos trabalhadores pelas oito horas de trabalho diário, a ascensão do comunismo e do fascismo, bem como o esforço que Portugal fez para povoar as colónias e manter os territórios em África, numa época em que o trabalho forçado ainda era prática comum.

HT: O que mudou na sua vida depois da edição do livro? 
Sofia Ferros: Apesar do esforço e dedicação absoluta que a escrita deste romance exigiu, foi uma experiência fantástica. Tive o apoio de familiares e amigos, bem como da editora, Maria do Rosário Pedreira, e restante equipa da LeYa, com quem gostei muito de trabalhar. O ano de 2014 foi rico em novas experiências como, por exemplo, o lançamento de “Amor entre Guerras”, que decorreu nas lindíssimas Caves Manuelinas do Museu Militar e me deixou excelentes memórias que guardarei para sempre com carinho.
Contudo, foram as mensagens dos leitores, que me têm escrito a dizer o quanto gostaram do livro e a pedirem a continuação da história num segundo volume, que me fizeram tomar a decisão de me dedicar à escrita a tempo inteiro. O sentimento de realização que o contacto com os leitores me proporciona é incomparável. Apesar de sempre ter abraçado com grande entusiasmo todos os desafios profissionais que aceitei, nunca senti uma recompensa semelhante.

HT: Gosta de ler? Em caso afirmativo, quais os seus escritores de referência?
Sofia Ferros: Sim. Atualmente dedico parte do meu tempo de leitura a temas como a pesquisa histórica, produtividade, desenvolvimento pessoal, saúde e bem-estar.
No que se refere à ficção, prefiro romances históricos e alguns contemporâneos. Também gosto de poesia.
Além de Eça de Queirós e Fernando Pessoa, alguns dos meus escritores de referência são: Isabel Allende, Wilbur Smith (romances passados em África), Ken Follett e Nicholas Sparks.

HT: Para finalizar, uma pergunta que já é habitual nas nossas entrevistas: já pensa num próximo livro?
Sofia Ferros: Sim. O projeto inicial que apresentei à editora contemplava mais três livros. Contudo, nessa altura, nem a editora nem eu sabíamos se seriam para avançar.
Os outros volumes tratam do desenvolvimento da história desta família ao longo das gerações, num percurso que leva os leitores desde a Segunda Guerra Mundial – onde termina “Amor entre Guerras” – até aos dias de hoje. A ação passa-se entre a Europa e África, abarcando temas como a resistência em França, a espionagem em Lisboa e Lourenço Marques nos anos 40, a descolonização nos anos 70 e uma nova vaga de emigração para África em consequência da crise económico-financeira que atualmente asfixia Portugal.
Presentemente estou a realizar a pesquisa histórica para o segundo volume, passado durante a Segunda Guerra Mundial. Alexandrine e Michelle, sua filha, encontram-se em Paris, em junho de 1940. Os alemães derrotaram as tropas aliadas e estão às portas da cidade. Mãe e filha juntar-se-ão aos milhares de parisienses que fogem da capital a caminho da fronteira com Espanha, sob ataque de aviões inimigos. Os refugiados não esmorecem na tentativa de obter um visto que lhes permita atravessar os Pirenéus e chegar a Lisboa.
Devido à neutralidade de Portugal, nos anos seguintes, a capital do país transforma-se num centro cosmopolita de refugiados e espiões de variadíssimas nacionalidades. 

Entrevista a Ana Cristina Pinto

Esta semana entrevistei Ana Cristina Pinto, autora do livro "A Guardiã- O Livro de Jade do Céu".
Podem acompanhar o percurso desta autora aqui.
Muito Obrigada à Ana Cristina pela entrevista.

HT: É inevitável começar com esta pergunta: Como é que surgiu a ideia de publicar um livro?
Ana Cristina Pinto: Eu só quis fazer uma coisa na vida: Escrever. Desde muito cedo que todas as minhas ambições se entrelaçavam com a escrita. Tive, no entanto, sempre a consciência, de que para escrever é preciso amadurecer. São as experiências de vida que nos dão “sumo”, conteúdo.  Viajar também ajuda muito e eu aproveitei cada viagem que fiz, (infelizmente menos do que gostaria), para crescer interiormente. Enriquecer-me. Mas só agora, já depois dos 40 anos, senti que tinha efectivamente algo de bom para dar aos outros. E escrever é isso. Dar de nós aos outros. Em 2004 comecei a ter blogues e à medida que ia verificando a aceitação das pessoas, ia ganhando um entusiasmo ainda maior pela escrita. A partir de uma certa altura, foram mesmo as pessoas que me liam que passaram a “exigir” um livro. A ideia começou a ganhar forma e aqui está o meu primeiro romance.

HT: Como correu o processo de edição?
Ana Cristina Pinto: Eu terminei de escrever “ A Guardiã- O Livro de Jade do Céu” em Julho de 2014. Enviei depois o original para várias editoras. Muitas avisaram logo que só me poderiam dar uma resposta 1 ou 2 anos depois. Tive uma nega de um grande grupo editorial que simpaticamente me enviou um e-mail dizendo que não me publicariam imediatamente, apenas porque já tinham concluídos os seus planos editoriais para os próximos 3 anos, e que, se eu estivesse disposta a esperar, poderia vir a ser editada por eles, uma vez que reconheciam qualidade no meu trabalho. Mas eu não tive essa paciência toda. Esperar mais 3 anos parecia-me impossível e tentei publicar com a primeira editora que rapidamente me deu o “Sim”. Já depois do contrato assinado e com o original na fase de paginação, percebi o erro enorme que eu estava a cometer. A editora que eu tinha escolhido dava sinais inequívocos de não ser afinal editora nenhuma, mas sim uma gráfica que quer apenas lucrar com os exemplares que o autor é obrigado a comprar. (É preciso ter cuidado, quando se pretende escrever para o publico e não apenas para os amigos. Andam por aí muitas “editoras” assim!) Não houve a mínima preocupação com a qualidade do texto, não fizeram revisão, a paginação estava péssima e eu percebi que o meu livro nunca iria estar à venda em lado nenhum. Este meu primeiro contacto com o mundo editorial foi péssimo e eu rescindi o contrato ainda antes do livro sair para a gráfica. Foi o melhor que fiz! Alguns meses depois recebi uma outra proposta da Capital Books e aceitei. Encontrei nesta editora uma equipa profissional, motivada, dinâmica e verdadeiramente interessada nas obras que publica e nos seus autores. Desde o primeiro momento, a Capital Books surpreendeu-me sempre pela positiva. Qualidade, empenho e rigor fazem parte da sua forma de estar no mercado. E eu não quero nada menos para os meus livros.

HT: Para quem, como eu, ainda não leu este livro, pode falar-nos um bocadinho sobre ele?
Ana Cristina Pinto: “ A Guardiã- O Livro de Jade do Céu” é um romance de ficção/fantasia. Tem uma forte componente histórica, muito do que se fala no livro existe ou existiu realmente, há também uma grande dose de espiritualidade, um puzzle que se monta com essa mesma espiritualidade, com ciência, sobretudo a Física Quântica (que me fascina brutalmente), e a mitologia, mas acima de tudo é bom que as pessoas percebam que se trata de ficção. Eu não tento em momento algum criar uma nova teoria. Eu apenas juntei várias teorias e cozinhei um enredo que resultou numa trama onde os principais ingredientes são o amor, a eterna guerra entre o bem e o mal, a intriga e a espiritualidade. O que eu gostaria mesmo de conseguir com este romance, é, tal como diz o escritor Luís Miguel Rocha no prefácio, levar quem o lê, a fazer perguntas.

HT: Gosta de Ler? Se sim, quais as suas referências literárias?
Ana Cristina Pinto: Eu adoro ler. Como eu digo sempre, já em criança preferia livros a bonecas. Não posso por isso garantir, que não fui buscar inspiração para o meu estilo de escrita a um ou outro autor que gosto mais. Harold Robbins, Deborah Harkness, Siba shakib, Jeffrey Archer, Tolkien e George R.R.Martin (no género fantástico), e sempre, sempre os portugueses Lobo Antunes , Fernando Pessoa, Miguel Torga, e os contemporâneos, Luís Miguel Rocha, José Rodrigues dos Santos, Inês Pedrosa, José Luís Peixoto, Miguel Esteves Cardoso entre outros. Só em Portugal temos excelentes autores.

HT: O que mudou na sua vida depois da publicação do livro?
Ana Cristina Pinto: Mudou tudo e nada. Eu continuo exactamente a mesma pessoa, a fazer o que sempre fiz. O que mudou foi a minha preocupação maior em melhorar sempre, porque se dei este passo, não posso agora defraudar quem me lê. Claro que não agradarei a todos, mas àqueles a quem a minha escrita agradar, devo isso. É um compromisso entre mim e eles.

HT: Para terminar, sei que ainda é muito cedo, mas não posso deixar de perguntar: já pensa num novo livro ou ainda está a “aproveitar” este?
Ana Cristina Pinto: Estou a fazer ambas as coisas. Este livro é o primeiro volume de uma saga e o segundo já está em fase de preparação. Contudo, “ A Guardiã” é uma história que exige muito trabalho. Não basta escrever e já está. É preciso fazer muita pesquisa, compreender muitos conceitos, e voltar à fase de encaixar todas as pecinhas para que a história faça sentido. Isto não se faz em meia dúzia de meses, infelizmente. Antes que saia o segundo volume, tenho praticamente preparado um romance que nada tem a ver com este, até o registo de escrita é completamente diferente, não exige qualquer pesquisa, o que o torna bem mais fácil, mas que acredito, cumprirá na perfeição os objectivos de qualquer livro: Envolver o leitor da primeira à última página e levá-lo a fugir das suas rotinas. Este livro será, sem dúvida, o meu hino ao amor.